sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Verdades I

"Cada um escolhe as verdades com as quais consegue lidar", dizia ele, e não pude deixar de imaginar de quais verdades eu mesma estaria fugindo. Logo eu, sempre orgulhosa dos meus já 11 anos de análise, todos eles passados derrubando mitos, inverdades que, dizem os grandes psicanalistas, criamos para nós mesmos por ser tão absurdamente doloroso lidar com as verdades por trás dos fatos. Talvez nesses 11 anos eu já tivesse cuidado de quebrar todas as mentiras que contava pra mim mesma, mas no exato momento em que tal pensamento me veio à mente, ouvi a voz da minha amiga, com quem divido apartamento, que ter amiga psicóloga tem suas dores e delícias, dizendo que aquilo não poderia estar mais longe da verdade. Sempre e pra sempre tentaremos nos (auto)enganar e só quem faz análise poderia identificar tais mentiras, escutei-a dizer, e tratei de cutucar fundo à procura daquela verdade oculta com a qual eu não queria lidar. Pai e mãe? Não... adoção? Não... Profissão? Acho que não... (apesar de que tem que ser meio maluco pra escolher ser concursando, ainda mais dessa categoria de concurso). Voltei a uma questão com a qual lutei por anos, quando do fim de um relacionamento, e que tenho a impressão de nunca ter conseguido superar totalmente. O problema não era o relacionamento, mas tudo o que veio à tona dentro de mim com o ser término. Eu inventava os motivos e as circunstâncias do rompimento conforme mudava a pessoa para a qual contava o fato. O que isso queria dizer? Que eu não tinha conseguido realmente aceitar o que eu fiz e o que foi feito comigo, que nunca encarei a verdade pura e simples do que aconteceu e, por isso, me propus a fazer isso aqui. O que vem a seguir é apenas uma catarse, que terei que fazer em diversas partes, afinal é muito complicado lidar com a verdade assim, toda de uma vez, esfregada na nossa cara...

Girassóis.

Andava há tempos atracada com um livro que me fazia refletir muito, talvez demais, visto que volta e meia tinha que fechá-lo e mantê-lo fechado por um tempo, no colo, dedo marcando a página, para que eu pudesse absorver a enxurrada de pensamentos que me atingia, geralmente dentro de algum transporte público, único momento que eu reservava no dia para ler algo não-jurídico, que vida de concursando, esse povo que 'só estuda', não trabalha, não lida com patrão nem nada, não é fácil. Voltando ao livro, não propriamente a ele, mas o que dele decorria, começou a ser tão forte e tão intenso que parecia me destacar da vida, dessa vida terrena, me colocando quase-que-contra-minha-vontade (como se isso fosse possível) num plano só de pensamentos, onde escutar as buzinas dos carros, sentir o vento no rosto, as pessoas fazendo o derradeiro passeio do dia com seus cães, tudo, parecia meio surreal, como se não estivesse realmente acontecendo. Ou como se quem não estivesse acontecendo fosse eu, descendo os degraus do ônibus e tocando o chão com os pés, olhando aquilo tudo em volta sem realmente olhar, de tão envolvida em tantos pensamentos que não podem ser ditos em voz alta sob o risco de me tacharem de doida, simplesmente por não conseguirem acompanhar a rapidez da mente já tão acostumada a pensar sozinha, sem interlocutor para interpelá-la senão ela mesma, que pergunta e responde num grande ballet de idéias que nem o melhor bailarino conseguiria entrar assim, no meio de um passo, e acompanhar o restante.

Escritores anônimos

Acho que eu tinha que andar na rua com um gravador. Os melhores pensamentos, as melhores frases, as idéias mais interessantes de como-se-começar-um-livro e coisas do gênero geralmente me atacam de surpresa e me deixam sem ar dentro do ônibus, na volta pra casa, às 10 horas da noite, ou enquanto ando de bicicleta pela orla, ou enquanto tento me concentrar nos estudos, em meio a uma biblioteca muda dessas do caminho. E agora, na frente do computador, cadê?! A tal deusa chamada inspiração?! Todos os clichês voltam, a originalidade vira fumaça e só o que me resta é esse gosto de qualquer coisa que eu não saberia dizer do que na boca. Frustração, talvez. Ai, precisava tanto escrever o que eu ando pensando! Mas no momento minha mãe está chamando pra comer pizza. Putz, lembrei uma coisa que eu gostaria de escrever... mas acho que é tarde demais... Cadê o tal do gravador!?