sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Girassóis.

Andava há tempos atracada com um livro que me fazia refletir muito, talvez demais, visto que volta e meia tinha que fechá-lo e mantê-lo fechado por um tempo, no colo, dedo marcando a página, para que eu pudesse absorver a enxurrada de pensamentos que me atingia, geralmente dentro de algum transporte público, único momento que eu reservava no dia para ler algo não-jurídico, que vida de concursando, esse povo que 'só estuda', não trabalha, não lida com patrão nem nada, não é fácil. Voltando ao livro, não propriamente a ele, mas o que dele decorria, começou a ser tão forte e tão intenso que parecia me destacar da vida, dessa vida terrena, me colocando quase-que-contra-minha-vontade (como se isso fosse possível) num plano só de pensamentos, onde escutar as buzinas dos carros, sentir o vento no rosto, as pessoas fazendo o derradeiro passeio do dia com seus cães, tudo, parecia meio surreal, como se não estivesse realmente acontecendo. Ou como se quem não estivesse acontecendo fosse eu, descendo os degraus do ônibus e tocando o chão com os pés, olhando aquilo tudo em volta sem realmente olhar, de tão envolvida em tantos pensamentos que não podem ser ditos em voz alta sob o risco de me tacharem de doida, simplesmente por não conseguirem acompanhar a rapidez da mente já tão acostumada a pensar sozinha, sem interlocutor para interpelá-la senão ela mesma, que pergunta e responde num grande ballet de idéias que nem o melhor bailarino conseguiria entrar assim, no meio de um passo, e acompanhar o restante.

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